José Carlos Saldanha, 50 anos, tem hepatite C há 19. Quinta-feira, um elemento do gabinete do ministro da Saúde foi-lhe dizer pessoalmente que já estava disponível a medicação que o pode curar. Paulo Macedo, a quem o doente tinha suplicado no Parlamento para lhe salvar a vida, mandou "pedir desculpa pela má condução do processo".

Não me deixe morrer!" A frase de José Carlos Saldanha, 50 anos, marcou na quarta-feira a audiência parlamentar da comissão de saúde, onde era ouvido o ministro Paulo Macedo. Foi para o governante que o doente com hepatite C olhou, olhos nos olhos, e que, de pé,lhe suplicou a cura. Não é homem de show-off nem de faltas de educação, mas ultimamente a doença tem falado por ele, e fala de urgência, de tempo finito, de 80% de hipóteses de morrer no espaço de um ano. O travão estava na mão do homem para quem gritou. Ontem,o ministro deferiu o seu pedido.

"Foi uma surpresa tão grande. Uma pessoa muito próxima do ministro da Saúde, do seu gabinete, veio ter comigo pessoalmente para me dizer que já tinha sido aprovada a medicação inovadora. Acabei de tomar os dois primeiros comprimidos. Nem consigo explicar-lhe como me sinto.As perspetivas de uma vida... o passaporte está na minha mão, está finalmente na minha mão. Estou feliz", contou esta quinta-feira ao Expresso.Com a notícia, o enviado de Paulo Macedo levou também ao doente um "pedido de desculpa pelo processo ter sido mal conduzido, pelo atraso", revelou.

José Carlos Saldanha foi hoje ao Hospital Curry Cabral buscar a medicação para seis meses. "Agora é esperar que faça efeito. Não me posso esquecer que a minha doença já está num estágio muito avançado. Mas espero no Verão já comer um bocadinho de carangueijo, igual ao de Moçambique, a terra onde nasci".

Esta foi uma semana de emoções. Na quarta-feira, antes de entrar no Parlamento, este expert em relógios de coleção recebeu um telefonema do Hospital Curry Cabral: tinha acabado de integrar a lista de transplantes hepáticos. O seu fígado, com cirrose, chegara ao fim da vida. Sem medicação, precisava de ser substituído ou levaria com ele o portador. Por enquanto o seu nome vai continuar lá, na lista, à espera do resultado da terapêutica milagrosa do laboratório norte-americano Gilead, que tem entre 80 a 100% de sucesso na cura total da doença.

Esta manhã, o ministro Paulo Macedo avançou com a notícia do desbloqueio do medicamento para milhares de doentes, congratulando-se por ter conseguido negociar o preço mais baixo em todo o espaço europeu. Até agora, o acesso tinha de ser pedido ao Infarmed através de uma autorização de utilização excecional, por decisão médica e hospitalar, com critérios tão restritos que limitavam ao nínimo os beneficiários. O pedido de José Carlos estava lá desde dia 13 de janeiro a aguardar despacho.


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